parto de palavras

rosane coelho

Meu Diário
19/08/2006 20h46
VENTANIA
"Assovia o vento dentro de mim.
Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara."

(Eduardo Galeano)

* do Baú da Lênia *

Sem certezas, sem verdades, sem enfeites ou máscaras: nada é absoluto. Construo a cada passo o caminho que se fechará à minha passagem. Mãos livres para acolher o outro: agente de minha constante transformação. Tocar. Trocar. Não ser. Estar.

Publicado por Rosane Coelho em 19/08/2006 às 20h46
 
18/08/2006 11h02
ALGO LOCO
"Ela bate a porta com força e diz que vai morar em outro país , em busca de umas aventuras idealizadas que ela nem tem certeza se precisam mesmo ser vividas , e ele chuta o pobre do cachorro e passa três dias sem comer e sem dormir , então pede dinheiro emprestado e vai atrás dela , não importa que não tenha nenhum endereço onde encontrá-la , e ao chegar a Madri , que era o destino daquela desmiolada , e ele só sabendo dizer muchas gracias e nada mais , aceita a ajuda de uma menina de Londrina , Paraná , que trabalha no aeroporto e que malandramente colocou à disposição seu apê por uma noite , e como ele está morto de cansado e carente até a medula , aceita e acaba tendo um affair que já dura duas semanas com a paranaense , enquanto aguarda que a providência divina coloque aquela maldita fujona na sua frente , por quem segue apaixonado e sem saber que ela está lavando cabelos clandestinamente num salão de quinta categoria e mortalmente arrependida por ter saído do Brasil feito uma desatinada atrás de uma coisa que ela nem sabia direito o que era a única coisa que ela sabe hoje é que ama aquele infeliz ciumento , mas até do ciúme dele ela sente falta , e enquanto morre de saudades escreve uns poemas de amor que ela tampouco sabe como fará chegar às mãos dele, já que telefonou e soube que o homem desapareceu no mundo , nem a mãe dele desconfia de onde ele se meteu , e ela teme que ele esteja bem longe , mais longe do que nunca esteve , e chora enquanto lava os cabelos de uma paranaense que apareceu por ali dizendo que precisava ficar bonita porque conheceu um brasileiro perdido no aeroporto e quer ver se consegue conquistá-lo , o que a fujona desaconselha veementemente , não invente de se apaixonar , a gente perde o senso , um dia gosta e no outro não tem certeza , é uma montanha-russa que nos desestrutura e no final das contas a gente faz umas besteiras como querer aproveitar a vida a qualquer custo , como se estando apaixonada não a tivéssemos aproveitando , e então o cabelo ficou lavado e as duas brasileirinhas trocaram um sorriso e antes que se despedissem já estavam combinando de comer juntas um feijão contrabandeado e a fujona prometeu aparecer no domingo para o almoço , quando então se reencontrou com aquele infeliz ciumento que ela havia abandonado e ali os dois brigaram feito cão e gato , ela chamando-o de galinha, ele chamando-a de inconstante , e diante da paranaense estupefata e do feijão esfriando na panela calaram-se com um beijo que quando terminar recomeçará a história de outro jeito .

“ Amor que no es loco , logrará poco .” (Provérbio espanhol. Verdade universal)

(Martha Medeiros)


* do Baú da Nédier *


Amor de verdade carece de uma dose de insanidade. Embora tenha buscado a rima por exercício, acredito tratar-se de uma outra forma de dizer a "verdade universal" do provérbio espanhol. O problema é encontrar a posologia exata...

Publicado por Rosane Coelho em 18/08/2006 às 11h02
 
17/08/2006 21h35
CIRCUNSTÂNCIAS
(Bruce Fairchild Barton)

"Nada de esplêndido jamais foi realizado, exceto por aqueles que ousaram acreditar que algo dentro deles era superior às circunstâncias."

* do Baú da Lênia *

Só os transgressores mudam o mundo. A ordem não traz o progresso. Flores do caos a enfeitar um mundo diferente.

Publicado por Rosane Coelho em 17/08/2006 às 21h35
 
16/08/2006 18h21
ALFÂNDEGA
(Jélson de Oliveira)


Declaro para os devidos fins
Que tenho 4 pensamentos obscenos agora
E cruzo o cabelo da tarde com eles
Abaixo da língua.

Declaro um pouco de escuridão
E nadando uma flor na algibeira.

Declaro um silêncio nos olhos
E a tinta da aurora roubada
Numa esquina de Roma, e suas pedras.

Declaro um verso colhido numa fonte
Na alta Chamois, derretendo-se.

Declaro para os devidos fins
Que se fizerem necessários aqui e agora
Que sou nas coisas perenes
Traficante do invisível.


* do Baú da Nédier *


Eta, poeta! Que bom que você não sonegou essa imagem linda: e nadando uma flor na algibeira... Contrabandeei seus versos aqui pro Parto. A Nédier carimbou o passaporte... Quando você passar na alfândega e apertar o botãozinho, com certeza todas as luzes verdes se acenderão... Flor na algibeira e tinta de aurora roubada é demais da conta!

Publicado por Rosane Coelho em 16/08/2006 às 18h21
 
15/08/2006 18h28
TANTO
(Helena Kolody)

Da estátua de areia
nada restará
depois da maré cheia.

* do Baú da Nédier *


A gente deveria acordar todo dia e recitar esses versos, como quem diz uma oração. Enquanto estátuas de areia, que nos seja concedida a graça de ornamentar a orla em tempo de maré baixa. Amém.

Publicado por Rosane Coelho em 15/08/2006 às 18h28



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